Como Investir em 2021

(Artigo de Carlos Pinto, Senior Investment Manager da Optimize IP.)

 

O ano de 2020, que vaticinava o prolongar do anterior longínquo ciclo expansionista, foi fortemente abalado pela pandemia da Covid-19, confinando grande parte da população mundial e como consequência, afetando a atividade económica. Os mercados financeiros foram bem pressionados, obrigando os vários governos por todo o globo e paralelamente os principais bancos centrais a promoverem estímulos económicos e monetários em dimensões nunca assistidas, representando valores várias vezes superiores às quedas previstas do produto interno bruto das várias regiões/países.

Tudo somado, assistimos a uma forte assimetria setorial dentro das várias classes de ativos. Por um lado, uma reação positiva nos setores mais preparados para o trabalho à distância. Por outro, os mais dependentes do trabalho presencial, foram os mais penalizados. Genericamente, assistimos a uma recuperação em “V” alargado, perante as fortes intervenções das entidades governamentais e supranacionais, e intensificado no final do ano pelo sucesso da última fase de vários ensaios clínicos das vacinas para tratamento da Covid-19. Portanto, o próximo ano vai ser marcado por uma reabertura gradual das várias economias ao ritmo da vacinação da população mundial.

 

EUA

Nos EUA, para atacar o abrandamento económico do confinamento populacional, a FED promoveu um corte abrupto das taxas de juro para valores próximos de zero, mantendo o atual nível para os próximos anos, de forma a minimizar os efeitos da contração da económica para 2020, e potenciar a sua recuperação nos anos seguintes. Paralelamente, a injeção de liquidez para compra de ativos, já atinge 3 triliões de dólares, correspondendo a 15% do seu PIB. Do lado governamental, a administração americana acompanhou com novos estímulos para financiar e subsidiar diretamente a população e as empresas, montantes que correspondem a 12% do PIB. Portanto, estímulos que superam largamente o forte abrandamento com tendência para serem reforçados no caso de estes números venham a deteriorar. Todavia, um segundo pacote de estímulos, no final do ano na antecâmara das eleições presidenciais americanas foi “embargado” no congresso, com os democratas e republicanos não terem chegado acordo quanto aos seus detalhes. Contudo, o novo pacote de ajuda, se não for antes, deverá ser implementado após a tomada de posse dos novos membros da câmara dos representantes e do senado em janeiro 2021.

Joe Biden, pelo partido democrático, acabou por vencer umas eleições disputadas ao limite, escrutínio marcado pelos acontecimentos deste ano, especialmente pela resposta leviana com que a administração D. Trump lidou com a pandemia. O partido democrático manteve a maioria na casa dos representantes, porém os republicanos ficaram com a maioria no senado. 

Os resultados eleitorais acabaram por animar os mercados, com a prometida reabertura da economia americana ao exterior e ao regresso à aposta na produção de energia renovável, em detrimento do fóssil. Adicionalmente, a maioria do senado pelos republicanos deverá dificultar a intenção da nova administração em limitar o crescimento dos conglomerados tecnológicos.

 

Europa

O ano foi marcado pelo forte condicionamento da atividade económica, sobretudo no 2.º trimestre e 4.º trimestre, períodos marcados pela 1.ª e 2.ª vaga. Em consequência, foram implementadas fortes medidas restritivas que condicionaram agressivamente a atividade económica e os mercados financeiros. Com efeito, o BCE assim como os vários governos de forma individualizada, consertada, e até mesmo mutualizada conseguiram compensar as fortes consequências da contração na atividade económica, fornecendo armas necessárias para estimular tanto o consumo como o investimento. A velocidade da recuperação na região vai depender muito dos decisores políticos, ou seja, em fazer chegar o máximo possível destas ajudas para a economia real e também do ritmo da vacinação à população.

 

Japão

No Japão, o ano de 2020 deverá terminar com uma contração de 5.5% e uma expansão nos anos seguintes de 4.2% e 2.6% nos anos seguintes. O BoJ mantém-se firme na sua política agressiva de compra de ativos, tanto em dívida como em ações. Nesta região, as suas autoridades atuam a uma velocidade avassaladora na promoção de estímulos monetários.

 

Mercados Emergentes

Nos países emergentes, por um lado a América Latina e Índia, muito penalizados pelo flagelo epidémico, por outro lado, os países do sudeste asiático, especialmente a China, foram os que melhor souberam lidar com pandemia, sendo os primeiros a voltar à normalidade. A China para além de ser a única economia a terminar o ano em crescimento, conseguiu mobilizar os seus vizinhos para o maior acordo comercial do mundo. Com efeito, a China, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia e 10 países do sudeste asiático celebraram compromissos para a livre circulação de bens, representando 1/3 das transações do comércio mundial. Apesar de ainda não contar com a Índia, é mais um marco na predominância da China no comércio mundial.

 

Ações

Reiteramos a nossa preferência por ações, especialmente às que melhor estão a responder a toda a transformação estrutural da conjuntura global. As medidas restritivas impostas ao longo do ano tiveram o condão de acelerar a tendência de uma maior digitalização e menor dependência do trabalho presencial, pelo que privilegiamos os setores mais beneficiados pelas alterações estruturais que esta pandemia despoletou. Remeto naturalmente para empresas tecnológicas que fomentam a digitalização e robotização da economia. Empresas ligadas a cuidados de higiene, saúde pelo tema do envelhecimento demográfico. Por fim, as empresas ecologicamente sustentáveis, beneficiadas pela forte redução do custo de produção das energias solares e eólicas, e pelos fortes apoios governamentais face à urgência de transformação energética. No fundo, privilegiamos as ações que indiciem um crescimento sustentável e mais facilmente projetável das suas vendas e receitas para períodos de médio longo prazo, leia-se 5 a 10 anos, independente do ciclo económico. Entendemos que são os ativos indicados para resguardar o património do atual enquadramento de taxas de juro nulas e negativas, iniciada há 10 anos e que promete perpetuar-se no tempo.

 

Obrigações

O mercado obrigacionista deverá continuar na próxima década bem suportado por taxas de juros nulas e pelos programas de compra de ativos massivos por parte dos principais bancos centrais. Nesta categoria, os rendimentos das emissões dos países desenvolvidos oferecem taxas reduzidas, com 18 triliões de dólares a negociarem com yields negativas. Este fenómeno atinge especialmente as obrigações cotadas em euros, refletindo o menor risco destes países assegurado pela âncora dos Bancos Centrais.

Recomendamos as obrigações de empresas americanas de Investment Grade que proporcionam um rendimento ainda interessante e suportadas por uma moeda forte. Adicionalmente aumentámos a exposição a dívida High Yield europeia e americana evitando apenas o setor petrolífero, visto que o programa de compra de dívida por parte dos Bancos Centrais promete não ter limites. No entanto, alertamos para a tentação do investimento em obrigações de muito longo prazo, leia-se emissões acima de 30 anos ou perpétuas, uma vez que num contexto de pânico, como o que observámos na primeira metade deste ano, são as mais penalizadas perdendo liquidez, o que poderá originar perdas avultadas. 

As emissões dos países emergentes, foram as mais penalizadas ao longo do ano. Com uma reabertura da economia e recorrendo a uma seleção bem minuciosa e diversificada encontramos excelentes oportunidades de entrada, especialmente de empresas que apresentam receitas provenientes de geografias mais consolidadas.

 

Maiores riscos

Entendemos que não estar investido em ativos reais, como é o caso das ações e até mesmo obrigações que promovam rendimentos acima da inflação, é lutar contra o forte arsenal dos Bancos Centrais, vislumbrando logo à partida o seu insucesso, leia-se degradação do património. O atual ecossistema já deu provas da sua independência e está munido de instituições robustas com bastante capacidade reativa na monitorização da conjuntura macroeconómica global. Como sempre, adotamos e defendemos uma abordagem racional e convicção no poder da diversificação, da flexibilidade e do longo prazo no processo de investimento. Respeitar o horizonte temporal idealizado é fulcral para que várias ideias de investimento atinjam o seu valor. Só assim é possível ultrapassar as várias intempéries que vão assolando todos os ciclos de investimento.

 

Fundo Recomendado

Recomendamos uma vez mais o Optimize Investimento Activo, um fundo dotado de flexibilidade para posicionar a sua exposição ao mercado acionista no intervalo de 0% a 100%, concedendo assim agilidade à equipa de gestão para posicionar o nível de risco e uma capacidade ativa para aproveitar várias oportunidades que vão sendo proporcionadas nos ciclos mais voláteis. Estas caraterísticas foram decisivas para evitar as fortes quedas dos índices acionistas e permitir um célere reposicionamento para acompanhar as fortes recuperações que se seguiram.

Artigo publicado in Optimize