Almoços grátis? Não há

Temos governos por todo o mundo a anunciar subvenções, apoios a fundo perdido, empréstimos a custo zero, ou seja, emissão de mais dívida numa sociedade que já não pode pagar a dívida actual.

As recentes medidas dos bancos centrais acentuaram a divergência entre a economia real e os mercados financeiros, principalmente quando emitem moeda do nada e compram obrigações, ETF ou acções.

 

Sabe-se agora que alguns bancos centrais aproveitaram o pânico das bolsas no mês de março para reforçarem os seus investimentos em algumas empresas. Enquanto isso, muitos investidores de retalho, bombardeados diariamente com notícias negativas relativas à pandemia de Covid-19 e dos seus impactos na economia, desfizeram-se de acções, unidades de participação, transformando em liquidez os activos financeiros que detinham, devido ao medo de perderem tudo.

Não houve um apelo à calma, nem se incentivaram os investidores reforçar os seus investimentos a longo prazo.

Dois meses após esta vaga de pânico chegamos à conclusão que assistimos a uma enorme transferência de activos, pelo menos a maior desde a grande crise financeira, sem grandes alaridos. Os bancos centrais e os fundos soberanos ficaram com mais poder, adquiriram títulos baratos e, no futuro, irão realizar mais-valias que, de outra forma, seriam dos investidores que entraram em pânico, gerando ainda maior desigualdade na sociedade.

Mas o que é mais perigoso nesta crise é a forma como a recuperação está a ser “vendida”. Temos governos por todo o mundo a anunciar subvenções, apoios a fundo perdido, empréstimos a custo zero, ou seja, emissão de mais dívida numa sociedade que já não pode pagar a dívida actual.

Não houve nenhum incentivo para utilizar o mercado de capitais a fim de financiar as empresas, recorrendo a aumentos de capital e à procura de uma nova base de accionistas quando os mercados têm o apoio dos bancos centrais.

O facto de esta crise ter origem em algo intangível, um vírus, está a servir para apagar completamente a função do mercado de capitais – i.e., está a servir de alternativa à dependência do financiamento bancário.

O financiamento a custo zero traz consigo um claro incentivo à emissão de dívida e ao reforço da dependência do Estado, aumentando o valor das empresas no mercado. Se somarmos a ausência de aumentos de capital à emissão de moeda, então percebe-se que a única forma de protecção contra o tsunami de impostos e a diminuição do poder de compra que aí vem, passa pelo investimento a longo prazo no mercado de capitais ou activos reais, como única forma de preservar a segurança financeira.

Não há almoços grátis e os governos ou países terão, mais tarde ou mais cedo, que pagar esta montanha de dívida. Seja através de impostos ou inflação, sabemos que vem aí uma destruição da sociedade tal como a conhecemos.

Artigo publicado in Jornal Económico