Nestas crises vão existir setores vencedores e outros perdedores

O ano de 2020, que tinha tudo para prolongar o já longínquo ciclo expansionista, acabou por ser fustigado pelo surto epidémico do Covid-19, confinando a população mundial. Como resultado, muitas indústrias e setores por todo o globo estiveram paralisados. Em resposta, os bancos centrais, assim como os vários governos, estão a reagir em força com programas de estímulos massivos para minimizar o impacto da epidemia, prometendo ir até onde for necessário para ajudar as empresas e famílias.

Por um lado, assistimos à degradação dos dados económicos, com valores só assistidos na grande depressão dos anos 30, mas por outro, os mercados financeiros, após o pânico de março, iniciaram uma recuperação em V, bem mais veloz do que seria expectável. Ao contrário de crises anteriores, as principais instituições governamentais iniciaram muito prontamente, e de uma forma concertada, fortes programas de estímulos monetários e orçamentais, que superam largamente as quedas estimadas do PIB. Todos estes estímulos visam compensar as quebras de receitas de muitas empresas, visando abrandar a ameaça do aumento do desemprego e ao mesmo tempo estimular o consumo. Como consequência, assistiremos a uma depreciação forte do dinheiro, e à degradação do endividamento dos países.

EUA

Nos EUA, para atacar o abrandamento económico do confinamento populacional, a FED promoveu um corte abrupto das taxas de juro para o intervalo 0%-0.25%, tendo mais recentemente assumindo o compromisso em manter as taxas de juro nos atuais níveis até ao final de 2022, de forma a recuperar a robustez dos dados do emprego e mitigar o efeito da contração económica, atualmente estimada em 6.5% para o final de 2020. Paralelamente, a injeção de liquidez para compra de ativos, já atinge 3 Triliões de dólares, correspondendo a 15% do seu PIB. Do lado governamental, a administração americana acompanha estes estímulos já em 2.5 Triliões de dólares para financiar e subsidiar diretamente a população e as empresas, montantes que correspondem a 12% do PIB. Portanto, estímulos que superam largamente o forte abrandamento e a tendência é para serem reforçados caso estes números venham a deteriorar.

Em ano de eleições, este prometia ser o tema central do ano, contudo o seu espaço mediático vai ser recuperado ao longo do 2.º semestre. D. Trump vai lutar para melhorar os dados do emprego e do crescimento económico repentinamente deteriorados pelo confinamento global, de forma a recuperar a liderança nas sondagens para as próximas eleições. Criticado inicialmente por uma postura leviana no combate à epidemia, e mais à frente pela austera resposta às manifestações contra a discriminação racial, após o assassinato do George Floyd, levou a quedas abruptas da sua popularidade refletidas nas várias sondagens para as eleições presidenciais deste ano. Atualmente, os 2 candidatos finais deverão ser D. Trump pelos Republicanos e Joe Biden, pelos Democratas.

Europa

Na Europa, os fortes estímulos orçamentais e monetários já superam os 17% e 10% respetivamente do PIB da zona euro. Tudo somado bem acima da queda do PIB estimado em 8.7%. A mensagem sublimar da postura das autoridades governamentais e monetárias, passa também por reforçá-los se necessário, de modo a contrariar o enfraquecimento dos dados económicos. A grande dúvida é a capacidade de estes estímulos chegarem à economia real, ou seja, às empresas e famílias que enfrentam problemas de liquidez no curto prazo. Um breve destaque para a Alemanha, um tradicional antagónico nestas políticas interventivas, pela célere reação na implementação de fortes estímulos fiscais na sua economia doméstica, assim como na promoção de um fundo comunitário de recuperação económica europeia.

Japão

O Japão, como sempre, lidera nos estímulos económicos. Estímulos orçamentais representam 21% e os monetários, 20% do seu PIB. A representatividade do BOJ nos ETFs Japoneses já atingiu os 80%. Sobretudo, nesta região, as suas autoridades atuam a uma velocidade avassaladora na promoção de estímulos monetários.

Mercados Emergentes

Os mercados emergentes apresentam ainda maiores incertezas em virtude do forte abrandamento global espelhado na queda das suas exportações, forte desvalorização da cotação das commodities, principalmente do petróleo, turismo praticamente inativo, menor capacidade destes países em conter a epidemia e sobretudo por não terem a mesma robustez monetária dos países desenvolvidos.

Ações

No enquadramento atual, temos preferência por exposição às ações, especialmente nas que ostentam um crescimento sustentável e mais facilmente projetável das suas vendas e receitas para períodos de médio longo prazo, leia-se 5 a 10 anos, independente do ciclo económico. Entendemos que são os ativos indicados para resguardar o património do atual enquadramento de taxas de juro nulas e negativas, iniciada há 10 anos e que promete perpetuar-se no tempo. Nestas crises vão existir vários setores vencedores e outros perdedores, deste modo, para além da importância da diversificação é fundamental uma abordagem ativa e flexível, de forma a proceder a rotação de setores mais proactivamente e célere. Consequentemente, estamos mais expostos a empresas de cuidados de saúde e laboratórios farmacêuticos pelo tema do envelhecimento populacional e por entendermos que a procura das terapias e testes diagnósticos não se vão esgotar com o abrandamento do surto epidémico. O setor tecnológico acelerou a sua influência disruptiva já há muito iniciado por apresentar as soluções para colmatar as necessidades do confinamento da população, que passam por agilizar o trabalho à distância e criar soluções de entretenimento. Estas empresas vão ser decisivas ao ajudar os restantes setores na automatização e robotização de processos rotineiros de outras indústrias.

Obrigações

O mercado obrigacionista continua bem suportado pelos programas de compra de ativos massivos por parte dos principais bancos centrais. Nesta categoria, os rendimentos das emissões dos países desenvolvidos oferecem taxas reduzidas, com uma grande parte das emissões a negociarem com yields negativas, especialmente nas cotadas em euros, refletindo o menor risco destes países assegurado pela âncora dos Bancos Centrais.

Neste grupo, reiteramos a nossa recomendação nas obrigações de empresas americanas de médio prazo que proporcionam um rendimento ainda interessante e suportadas por uma moeda forte. Adicionalmente em dívida High Yield, visto que o programa de compra de dívida por parte dos Bancos Centrais promete não ter limites. No entanto, alertamos para a tentação do investimento em obrigações de muito longo prazo, leia-se emissões acima de 30 anos ou perpétuas, uma vez que num contexto de pânico, como o que observámos no mês de março, são as mais penalizadas perdendo liquidez, o que poderá originar perdas avultadas.

Nos países emergentes, sem a mesma força das políticas monetárias dos países desenvolvidos, encontramos ainda algumas oportunidades em emissões de moeda forte, nomeadamente nas que apresentam receitas provenientes de geografias mais consolidadas, exigindo uma seleção minuciosa e acima de tudo bem diversificada.

Maiores Riscos

Entendemos que não estar investido em ativos reais, como é o caso das ações e até mesmo obrigações que promovam rendimentos acima da inflação, é lutar contra o forte arsenal dos Bancos Centrais, vislumbrando logo à partida o seu insucesso, leia-se degradação do património. O atual ecossistema já deu provas da sua independência e está munido de instituições robustas com bastante capacidade reativa na monitorização da conjuntura macroeconómica global. Como sempre, adotamos e defendemos uma abordagem racional e convicção no poder da diversificação, da flexibilidade e do longo prazo no processo de investimento. Respeitar o horizonte temporal idealizado é fulcral para que várias ideias de investimento atinjam o seu valor. Só assim é possível ultrapassar as várias intempéries que vão assolando todos os ciclos de investimento.

Fundo Recomendado

O Optimize Investimento Activo, é um fundo dotado de flexibilidade para posicionar a sua exposição ao mercado acionista no intervalo de 0% a 100%, concedendo assim agilidade à equipa de gestão para posicionar o nível de risco e uma capacidade ativa para aproveitar várias oportunidades que vão sendo proporcionadas nos ciclos mais voláteis. Estas caraterísticas foram decisivas para evitar as fortes quedas dos índices acionistas e permitir um célere reposicionamento para acompanhar as fortes recuperações que se seguiram.

Artigo publicado in Funds People