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Poupança a conquistar o mundo

Artigo escrito por Diogo Santos Teixeira, CEO da Optimize Investment Partners, para o Jornal de Negócios.

POUPANÇA A CONQUISTAR O MUNDO

Em vez de enfrentarem o alto mar, os portugueses não ousam pôr mais do que um pé na àgua…

A época dos Descobrimentos foi um ilustre momento da história portuguesa, durante o qual um povo de 3 milhões de almas partiu para conquistar o mundo. A recordação orgulhosa desses momentos épicos é legítima. Ser aventureiro não é fácil, requer coragem, sacrifícios, talvez mesmo uma pequena doze de inconsciência. Infelizmente a ousadia dos nossos antepassados parece ter morrido solteira quando olhamos para a forma como conduzimos hoje os nossos destinos financeiros, numa altura em que o mundo embarca numa nova era de descobrimentos: a revolução digital.

Ser ator dessa revolução requer, como ontem, alguma coragem. Os mais (ou menos) jovens poderão procurar lançar a sua startup, abdicando da segurança e do conforto financeiro de um emprego numa empresa tradicional. Os menos empreendedores, ou mais realistas, podem embarcar para São Francisco, Berlim, ou Londres para trabalhar numa das empresas pioneiras do setor. Existem, felizmente, inúmeros exemplos de portugueses nestas duas categorias. Mas temos de constatar que o impacto para a economia nacional é, para já, limitado. Pior ainda, o atraso acumulado pelas empresas de setores "tradicionais" na incorporação das novas tecnologias nos seus processos está a condená-las a sofrerem uma lente e irremediável agonia.

O Nasdaq, principal mercado de ações tecnológicas, oriundas de todo o mundo, e cotadas nos Estados-Unidos, vale hoje perto de 10 biliões de dólares. Conseguiu uma multiplicação do seu índice por 2,4 nos últimos 10 anos, entre maio de 2007 e maio de 2017. Durante este mesmo período, o índice PSI20 conseguiu uma divisão por 2,5… Esta trágica simetria permite duas conclusões: os nossos gestores não são Ronaldos, ao contrário do que se lê nas capas de algumas revistas, e investir em ações não se resume a comprar títulos de três ou quatro empresas do PSI20.

Felizmente, investir nas novas tecnologias é hoje acessível a todos e certamente mais cómodo do que emigrar para os Estados-Unidos. Pode ser feito diretamente, comprando os títulos das 10 ou 20 empresas mais representativas do setor. Ou, preferencialmente, através de fundos de investimento, tradicionais ou ETF, que permitem mais facilmente diversificar o risco e diminuir os custos mesmo para valores de entrada reduzidos. Mas se olharmos para a evolução da poupança dos portugueses ao longo dos últimos 10 anos, constatamos que a proporção de investimento em fundos, já baixa, foi reduzida a metade, de 8% para 4% do stock de poupança, quando ao mesmo tempo os depósitos cresciam até representarem mais de 40% do total de poupança. Ou seja, em vez de enfrentarem o alto mar, os portugueses não ousam pôr mais do que um pé na àgua…

Enquanto recusamos nos deitar à àgua, aqui vem uma lista, não exaustiva, dos setores nacionais que estão a sofrer as consequências desta revolução. O setor financeiro é o primeiro deles, sendo impactado de muitas formas, sofrendo pressão sobre as suas margens pela entrada de novos atores "sem balcões", de novas formas de distribuição de produtos financeiros, e pela concorrência de novas formas de pagamento (Paypal, Apple Pay…). Um estudo do Citi Bank estima uma diminuição de 30% a 50% do numero de funcionários ao nível europeu nos próximos 10 anos. A distribuição é outro setor de forte impacto das novas tecnologias. A Amazon continua a ganhar terreno em vários segmentos de produtos, dos produtos culturais, aos eletrónicos, passando pela moda e agora aos produtos de supermercado. A própria Ikea está a pensar testar a venda nesta plataforma em 2018. O setor automóvel e da energia também vai sofrer alterações profundas, a passagem à propulsão elétrica alterando não só o paradigma para os construtores e os seus fornecedores, como também do lado da distribuição, da manutenção e do abastecimento. Quem sairá vencedor no segmento "premium", BMW, Mercedes ou Tesla? Como é que a Galp e os seus concorrentes se vão adaptar a um mundo sem gasolina? São estas as perguntas que temos de ter em mente quando investimos.

Resistir à onda tecnológica não sendo uma opção, resta-nos surfá-la! Para os gestores, significa abraçar o desafio, investindo ou procurando uma associação que permitirá passar à frente do pelotão. Para os investidores, é necessário integrar este novo elemento na análise à situação de cada setor e empresa. Enquanto a bolsa portuguesa não tiver acordado para esta nova realidade, podemos e devemos olhar para os outros mercados para não deixar as nossas poupanças morrer na praia… ao lado dos nossos empregos.

Links úteis:

Artigo publicado in 
Jornal de Negócios
 em 19 de Junho de 2017
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